Crônica

Armário de sentir

Por: Cris Guerra

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(Foto: Attílio)

Minha infância usava um vestido trapézio com uma girafa aplicada. E sorria, sem ter ideia do que estava por vir. Depois usou o que não queria, marca barata ou falsificada, cresceu borralheira prevendo a madrasta de algum dia.

Minha felicidade vestiu branco diversas vezes, para depois enfiar-se num pijama confortável e sonhar com o edredom. Quando a morte chegou, busquei o conforto num conjuntode “liganete”, emprestado do armário da Mamãe, já que eradela a despedida. O tecido parecia ter me assentado bem.Ao voltar para casa é que pinicou.

Minha viuvez não se deixou humilhar. Vestiu umtomara que caia preto de comprimento no meio da canela e óculos escuros à la Jackie O. — quem mandou venerar o estilo da viúva? Lá fora, fazia verão. Uma sapatilha zebradaavisava à vida que eu era capaz de piadas melhores.

A maternidade vestiu bandeirinhas de Volpi, penduradas para ocultar uma tristeza que não se sentia no direito. Coração não sabia se ria ou se chorava — preferiu olhar para o espelho e sangrar só por dentro. Fiz patchwork com dores de todos os tons. Ficou bonito. Vi meu filho crescer enfiada em vestidos de algodão, para suavizar a primeira viagem de mãe. Teve trechos de céu cinza e chuva forte. Teve noite que pareciasem fim. Depois amanheceu. A maternidade botou maisroda nos vestidos: mais mulher fiquei.

Para encontrar o amor, vesti um jeans confortável,que não marca o corpo. Porque já era amor.

Minhas revanches sempre usavam minissaias.Frustrações se enfiavam em luto, sem esperança de clarear.A coragem vestiu fantasia e encarou o mundo.

Em meu vestido azul-marinho, o bordado de Ronaldo me cobre o corpo feito tatuagem. Brasil na pele, noites no sertão. Um outro, preto estampado de sapatos, faz metalinguagem coma moda exagerada que mora em mim. Mesclo estampas com a mesma destreza que alterno emoções num só quadradinho do calendário. Cabem todas no armário de sentir. As flores do casaco se misturam às do papel de parede, fazendo sala paraum jardim lírico. Bolinhas e bolotas riem de mim. A Carmem Miranda da minha camiseta prefere comer bananas a botá-lasna cabeça. Laranja e rosa são amigos para sempre e ainda visitam o vermelho no hospital. Preto e branco vivem chamando outras cores para jantar. Discretos, cercam-se de companhias excêntricas para garantir a diversão. Listras e flores conversam animadas, enquanto babados dançam até sem música. A toalha de piquenique vira vestido com as frutas por cima. Óculos de diversos formatos trazem outras de mim. Paro para olhar.

Minha moda é inconstante como eu, e também revisita décadas. Roupas são molduras do sentir. A cada madeira,um quadro novo por dentro. Paisagens em movimento,história que não para, palavras para vestir.     

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE